Cândido de Faria

1849-1911 Brazilian

Cândido de Faria

Pioneiro brasileiro do humor gráfico

Cândido Aragonez de Faria foi um jornalista, caricaturista, ilustrador e professor brasileiro, considerado um dos principais artistas gráficos do humor e da publicidade de sua geração. Era filho do ilustre médico de Laranjeiras, José Cândido Faria, e da espanhola Josefa Aragonez, e cresceu em circunstâncias confortáveis. Tinha os irmãos Adolfo, Júlio e Henrique. Em 1855, após a morte do pai, a família mudou-se para o Rio de Janeiro com seus oito escravos. Sua mãe faleceu em 1860, deixando os filhos sob a tutela do irmão Antônio Amálio Aragonez e sustentados por uma pensão concedida pelo Império. Após passar pela tutela de outros dois tutores, em 1869 Cândido foi emancipado. Estudou na Academia Imperial de Belas Artes e talvez no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. Cândido concluiu os estudos em 1866 e no mesmo ano já apareceu profissionalmente como caricaturista no jornal A Pacotilha, e pouco depois tornou-se redator e ilustrador de A Folha Fluminense. Em 1869 fundou o semanário O Mosquito com seu irmão Adolfo, e em 1871 comprou O Lobisomem de Antônio Alves do Vale, passando a fazer alguns trabalhos em parceria com este ilustrador. Suas primeiras obras conhecidas mostram um talento ainda imaturo e inexpressivo, como seria de se esperar de um jovem iniciante. Mas sua evolução foi rápida e evidente. Ele gerou polêmica, neste estágio de sua emergência, por supostos plágios de ilustradores franceses, que estavam na moda, mas alusões e referências a obras e ideias alheias fazem parte do espírito de sátira e paródia, essencial à arte da caricatura, e na época eram uma prática comum. Além disso, naquele tempo, a cultura francesa estava na moda no Brasil; era o novo modelo ideal de civilização. Com as gravuras de O Mosquito, começou a firmar seu nome como um dos caricaturistas mais requisitados da capital do Império. Por um tempo, assinou todas as ilustrações do periódico, que prometia N'O Mosquito, Faria já demonstrara sua capacidade de articular contos e situações em quadrinhos, e é provavelmente por isso que em 1872 deu continuidade a As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de Uma Viagem à Corte, a primeira história em quadrinhos brasileira, publicada por Angelo Agostini em 1869, ilustrando os últimos cinco dos 14 capítulos da obra. Em 1874, fundou O Mephistópheles, que publicou e ilustrou integralmente por dois anos, sendo seu trabalho considerado um dos mais virulentos do período, especialmente pelo ataque ao clero durante a Questão Religiosa, destacando-se também pela qualidade gráfica; na opinião de Herman Lima, autor de uma biografia fundamental, ali deixaria "algumas de suas mais belas composições, não só pelo alcance político das legendas, mas também pelo vigor do desenho". Em 1876, regressou a O Mosquito, um ano antes do fim da publicação, e iniciou a sua colaboração com O Fígaro, sucessor do extinto A Vida Fluminense, dirigido por Luis Borgomainerio, assumindo a responsabilidade por todas as ilustrações e caricaturas do jornal. Alguns dos principais caricaturistas da época ali se reuniam, e Faria estava no auge do seu talento, mas permaneceu por pouco tempo, e no final do mesmo ano já trabalhava para O Ganganelli. Colaborou em muitas outras publicações do Rio de Janeiro, como o lendário O Mequetrefe, e foi o caricaturista exclusivo de O Diabrete durante a sua curta e celebrada tiragem de 11 números. Colaborou esparsamente com A Comédia Popular, A Galeria, Zigue-Zague, Ba-ta-clan, O Contemporâneo e outros. Por volta de 1874 ou 1875, ele já se tornara extremamente popular, uma das grandes estrelas do primeiro escalão, Em 1878, fez uma visita a Porto Alegre, que duraria quase dois anos. Anunciou-se como professor de desenho e aquarela, mas não parece ter deixado qualquer marca apreciável neste ensino. Em 6 de outubro de 1878, fundou um novo Fígaro em Porto Alegre. A revista teria apenas 19 números, mas deu uma contribuição inestimável para as artes gráficas e a imprensa ilustrada do estado, que ainda estavam em sua infância. Ele finalmente chegou a Buenos Aires em meados de 1879. As razões que o levaram a deixar o Brasil não são claras. Talvez Buenos Aires, um dos principais centros culturais da América, lhe parecesse um mercado mais promissor, mas ele encontrou um contexto tumultuado devido às guerras contra os índios, uma guerra civil e outros problemas. Apesar disso, sua estreia foi auspiciosa. Não demorou para lançar La Cotorra, e em outubro de 1879 já estava em circulação, apresentando ao público a primeira revista em cores da América do Sul, um avanço alcançado através da técnica da cromolitografia. Faria fez praticamente todas as ilustrações das 43 edições. Colaborou com El Mosquito, um jornal que provavelmente inspirou o brasileiro O Mosquito, e para o qual criou várias peças, e ilustrou com exclusividade 91 edições do diário El Gráfico, que cobria política, moda, comércio e notícias diversas. Faria contara desde o início com a colaboração do ilustrador argentino Carlos Clérice, mas com a ascensão ao poder de Julio Argentino Roca, a censura foi imposta à imprensa, e então os sócios se voltaram para a impressão e ilustração de partituras musicais para as editoras Hartmann, Guión e Rolon. Roca ordenou o fechamento do Cotorra em agosto de 1880; El Mosquito sobreviveu, porque se mostrara crítico aos governos anteriores e aderira ao programa do novo governo. Mas o contexto tornara-se desfavorável. Clérice partiu para a França em 1882 com seus irmãos e toda a sua família, fundando a importante tipografia Clérice Frères em Paris, publicando principalmente cartazes. Em 1883, Faria também estava em Paris, onde se fixou. Ali manteve contatos úteis com a família Clérice e com brasileiros em viagem ou em estudos, como Victor Meirelles, Eduardo Sá e Horácio Hora. Tinha a necessária adaptabilidade para se adaptar rapidamente ao novo ambiente, fundou um estúdio comercial, prosperou financeiramente e sua arte melhorou ainda mais. Tornou-se bastante bem-sucedido, trabalhando para várias revistas e jornais. Angelo Agostini o encontrou em 1889 e descreveu sua vida naquela época: "Também encontrei o nosso velho colega Faria, que ficou muito feliz em me ver. Ele não pinta, dedicou-se ao desenho, no qual fez enormes progressos e agora trabalha arduamente em várias ilustrações. É muito procurado e faz bons negócios." A grande virada em sua carreira começou em 1895, com a invenção do cinematógrafo. O cinema, de fato, tornou-se um sucesso instantâneo, atraindo todas as classes, e as emergentes companhias cinematográficas procuravam explorar todos os públicos possíveis. Para isso, era necessária a publicidade em larga escala. Foi Faria quem, em 1902, produziu o primeiro cartaz da história do cinema, para o filme Les victimes de l'alcoolisme, de Ferdinand Zecca, produzido pela célebre Société Pathé Frères. Trabalhou especialmente para os Clérice Frères, Film d'Art e Pathé, criando anúncios e cartazes para óperas, musicais, filmes e espetáculos de variedades, capas de livros e edições musicais, e outras obras. Seus cartazes para filmes e turnês de cantores e espetáculos famosos viajaram o mundo, conferindo-lhe uma reputação internacional. De 1902 a 1911, foi o principal cartazista da Pathé Frères, empresa que surgiu como a primeira gigante da cinematografia, quando seu trabalho, no entendimento de Gaudêncio Junior, atingiu a maior especialização, estabelecendo "o momento mais fecundo e sintético de uma narrativa ainda deficiente neste primeiro cinema". Suas imagens mantinham uma relação direta com o estilo e o conteúdo dos filmes que anunciavam, promovendo uma moda de produções sentimentais e/ou burlescas que tratavam da vida da pequena burguesia, do operário fabril, da costureira e da empregada doméstica, do vendedor ambulante, do órfão, descrevendo em tons fortes e clichês exaustivamente repetidos os dramas e as alegrias da família burguesa Graças à elegância e confiança de seus traços, ele está igualmente à vontade pintando interiores quanto pintando cenas de rua. Ele conhece as expressões humanas, desde as daqueles que vivem na sarjeta até as dos salões da alta sociedade. Com uma força de trabalho incomum, produziu enormemente, aplicando seu estilo refinado e poderoso a domínios muito diferentes, como filmes religiosos, ou de inspiração histórica, filmes cômicos, de fantasia e maravilhosos. Seu estúdio, uma fortaleza produtiva localizada na rue Steinkerque, 6, em Montmartre, foi o terreno fértil para muitos jovens talentos, um lugar onde, entre outros, seu filho Jacques de Faria (1898-1956), Jacques Bonneaud, François Florit, Antonin Magne e Gustave Soury foram formados.\nSeu estúdio empregava muitos colaboradores, que podiam participar até certo ponto da criação dos projetos, mas eram principalmente responsáveis pela execução. Competindo com uma legião de artistas gráficos de renome que trabalhavam na capital francesa, e conseguindo se estabelecer tão solidamente neste mercado competitivo, alcançando um público tão vasto, para Damasceno sua fase francesa representou seu "triunfo completo". Ele não estava, no entanto, interessado apenas nos negócios. Havia um forte componente ideológico e estético em seu trabalho, um desejo de renovar e levar a arte a um grande público. Através do cartaz em particular, Faria foi uma figura importante no movimento de modernização da arte. Cândido Aragonez de Faria trabalhou até o fim e morreu em pleno controle de suas capacidades, e foi sepultado na entrada do Cemitério de Saint-Vincent de Montmartre em Paris. Reza a tradição que ele morreu no meio da criação de um retrato da estrela Eugénie Buffet.

Artworks by this artist (34 total)